terça-feira, 21 de setembro de 2010

Assim eu descobri que estava no caminho certo


Dos dois meses que passei dando aula na Vila Sésamo no Ibura um dia em especial vai ficar na minha memória.

Depois de mais uma aula sem nenhuma participação de Terezinha eu estava fazendo a chamada quando ela me perguntou se eu poderia lhe esperar, pois ela precisava falar comigo. Depois da aula esperei e ela veio de um jeito diferente do que eu via nas aulas: estava calma e não conseguia olhar para mim.Começou me perguntando:

--A senhora já percebeu que eu nuca faço as tarefas que a senhora passa?

Eu respondi que sim e ela continuou:

-Sabe por que eu não faço?Porque eu não sei ler direito e não consigo escrever. Me ajude.Eu quero fazer as coisas mas não consigo.Tem professor que acha que eu sou burra mas eu não sou.

As palavras de Terezinha me deixaram sem ação. Eu olhei para ela e disse que iria fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para ajudá-la. Comecei indicando-a para o projeto alfa letramento que é uma espécie de reforço para alunos com dificuldades. No dia seguinte ela veio falar comigo antes que eu chegasse à sala:

-A senhora deu meu nome pro reforço não foi?

--Dei. Você não gostou?

-Gostei. Vai ser bom.

Duas semanas depois ainda com muitas dificuldades na escrita ela trouxe um caderno para me mostrar e veio desde longe sorrindo. Entregou-me e disse:

-Não ta muito bom não, mas pelo menos eu já comecei.

Li o seu texto e me emocionei bastante. Ela falava que nenhum professor tinha dado a ela a atenção que eu dei e que agora ia se esforçar mais em todas as aulas para que eu sentisse orgulho dela, pois quando eu disse que ia ajudá-la fui como uma mãe.

A minha relação com Terezinha mudou. Ela passou a participar das aulas, sempre sentar do meu lado, pegar livros comigo e criar textos diariamente. O progresso era lento, mas estava acontecendo e se antes eu a via como uma aluna preguiçosa e sem interesse, agora eu conseguia vê-la do jeito certo: como uma menina carente, com dificuldades acumuladas de anos anteriores e que queria entre tantas outras coisas um olhar diferente, uma atenção que talvez não recebesse em casa.

Meus tão intensos dois meses no Vila me fizeram ter certeza de uma coisa:eu nasci para isso.Minha profissão é realmente Professor!

(Carla Renata Alves )

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